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DEZ INVERNOS

de Naík Chagas (18/9/12)


em que verso ficaste e 
te quedaste muda quando
o tempo te levou para
junto deles

que canção cantavas tu
quando as asas te cercaram

e elevaram sobre
os céus

que murmúrios segredavas
às flores de tom nocturno
para que te desvendassem
a semente

sim conta-me os
pormenores da tua voz
ao viajares para lá de nós
sorrindo sempre

HELIODORO

de Naík Chagas (11/9/12)



com a maior delicadeza
o sol mudou a minha casa
e forçou as portas com o Verão

o céu deixou nuvens pelo tecto
e a tua figura opaca
deixou a luz entrar um pouco rasa 


e num impulso a escuridão
ganhou o jeito impune e recto
de plantar sonhos sobre a mesa

QUE INTERESSA DIZER

de Naík Chagas (31/7/12)


que interessa dizer que a
raiz dos pássaros são asas
ou que a desolação dos dias frios
chove nas praças do vento
que interessa saber da
geometria táctil das casas
ou das máscaras silentes 

que da vida fazem Entrudo
que interessa cantar os
grãos cinzentos do tempo
senão para dizer que tudo isto
fala mais que isto tudo

DAS RAÍZES

de Naík Chagas (24/7/12)


a raiz dos pássaros está nas asas
que os elevam para mais longe
até aos promontórios do silêncio
de onde em fumo observam:
a raiz dos homens

a raiz dos homens está nos olhos

e quer tragam ou não a cegueira
de outros mundos
sempre pela lua assinalados
se hão-de inclinar sobre:
a raiz das árvores

a raiz das árvores está nos astros
que em ecos cantam o signo escuro
de todos os impérios derrubados
no tempo em que reinava:
a raiz do fogo

a raiz do fogo está no luto
das marés feitas de vento e de giesta
onde a branca luz do tempo
tem de Beçalel a mão perdida
(que sem saber esculpiu:
a raiz dos pássaros)

O TEMPO DAS ÁRVORES


de Naík Chagas (5/6/12)


qual o tempo das árvores?
e a largura do seu pranto?
qual a voz com que sorriem
e a mão que pousam com
ternura em nossos escalpes
murmurando: correm tanto.

PROCURA-ME NESTA FRASE

de Naík Chagas (15/5/12)


procura-me nesta frase inominável sabendo que não
encontrarás senão o labirinto de um coração humano

do sol onde alto habitarei hei-de te olhar e de te sorrir
com a cabeça de dragão que só pelo vento reconheces

faz da minha a tua inominável frase e tece tu este jogo
infindo que se oculta e revela ainda novo a cada passo

para que quando eu do sol descer uma vez mais possa
também olhar para cima e aí ver teus sorrisos ancestrais

LÁ FORA

de Naík Chagas (3/4/12)




Lá fora a tempestade já partiu
E assim como a fúria se sumiu
Também meu corpo em breve irá beijar o vento

Nada finda que um dia não regresse
E de furor em furor a vida esquece
A tempestade do mais fundo esquecimento

RUNEMAL

de Naík Chagas (13/3/12)




mais elevados 
do que 
os meus desígnios

existem
somente
os meus desígnios

(na verdade
mais rasteiros
que os meus desígnios)

tive sonhos
tão imensos
que eram eu

GARÇA BRANCA

de Naík Chagas (21/2/12)




Para onde vais garça branca sem rezar?
Para onde vais e onde aspiras soçobrar

que o teu silêncio esvoaçante
não tem pressas nem tem preces

e o tempo da terra não te toca até que te quedes
muda e imutável sobre a serra

Onde não pousas nem sequer para descansar
Pois ao passares sempre só com deus te medes

PRIMEIRA ESTRADA

GALATEIA I
Está à venda o primeiro livro de Naík Chagas. Encomendas online (revistagalateia@gmail.com).
104 p. / 7€ / Capa: Miguel Jesus / Execução Gráfica: João Campos e Sónia Almeida


aspira ao que podias ter sido mais
sabendo que nada mais podias ter sido
porque foste a voz
que os deuses deram
ao teu nome

e se pensaste que te estava guardado
o silêncio
aquele que nunca tu silenciaste
lembra-te
que também o grito será breve
face ao vento
e grita
com essa força que guardaste
sem procurares o eco
da tua voz perdida
mas sorrindo ao vento
que nisso não se modifica
(ou talvez se modifique
somente na tua medida)

e então
esse grito entoará a eterna melodia


(excerto, página 71)