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ZEN PARA ADULTOS


de Miguel Jesus (4/7/12)


A lição oriental
desse oriente a oriente do oriente
diz-nos que a felicidade
não é um nome mas um verbo

e que verbo como tal
se conjuga diariamente

O OLHAR DOS VIVOS

de Miguel Jesus (26/2/12)


o olhar dos vivos não é
mais que um problema
escondendo
o que o olhar dos mortos desvenda
no poema

THE CHOICE / A ESCOLHA


de W. B. Yeats / versão de Miguel Jesus (29/5/12)


The intellect of man is forced to choose

Perfection of the life, or of the work,

And if it take the second must refuse

A heavenly mansion, raging in the dark.

When all that story’s finished, what’s the news?

In luck or out the toil has left its mark:

That old perplexity an empty purse,

Or the day’s vanity, the night’s remorse.




Por um instante, a perfeição de cada um

Há-de escolher entre a obra e a própria vida

E há-de gritar que só é são o suicida

E até da fome fará seus hinos ao jejum



Assim seguirão sempre lado a lado

A vida imensa que é uma obra incompleta

E a obra, que de vivida se faz fado
Ao completar também a vida em sua meta



E depois há-de soprar o vento sobre a terra

Até que tanto pés como pegadas sejam vento

E tanto a paz como a guerra sejam guerra

Na paz eterna do eterno esquecimento

ALL THINGS CAN TEMPT ME / AS TENTAÇÕES DE SAN ESCRIVÃO

de W. B. Yeats / versão de Miguel Jesus (10/4/12)


All things can tempt me from this craft of verse:
Onde time it was a woman’s face, or worse –
The seeming needs of my fool-driven land;
Now nothing but comes readier to the hand
Than this accustomed toil. When I was young,
I had not given a penny for a song
Did not the poet sing in with such airs
That one believed he had a sword upstairs;
Yet would be now, could I but have my wish,
Colder and dumber and deafer than a fish.


Tudo é tentação para que me afaste da poesia
Tanto os olhos das mulheres como os das aves
Tanto o vento dando voz às folhas soltas
Como as pequenas coisas de cada dia-a-dia
Que em mim se tornam tão sérias e tão graves.
Tudo me faz sair e andar às voltas
Para ver o mundo e vislumbrar a melodia
Que se esconde em cada esquina da razão
Entre aquilo que me tenta e quanto tento.
Sim, tudo é tentação para que me afaste da poesia
Mas condena-me ainda mais a profunda tentação:
De tentar sempre traduzir a voz do vento

BERESHIT

de Miguel Jesus (28/2/12)




A cada instante nasce a pergunta novamente
interrogando consecutivamente sempre
se a minha vida é de facto a minha vida
ou se os caminhos que escolhi ou achei que fui escolhendo
não estiveram a defraudar constantemente
uma vontade oculta que mais ou menos definida
pelo menos eu desconhecia
A cada instante está outra vez nascendo
a pergunta nascente como nasce o dia
interrogando o pensamento consecutivamente
sobre aquela porta que vi e que não sei se era a porta certa
ou se era uma porta que era porta mas não era minha
ou se era uma porta por onde só passava o vento
ou talvez uma porta que já estava aberta
ou que pelo menos ao ser aberta não era a minha mão que a abria
Interrogo-me se não bati à minha porta
se não a abri se não entrei
nessa porta que no fundo esteve lá sempre só para mim
por ser eu quem nela vê quem é
e por ser eu quem nela vê quem entra
por seu eu e ter sido só eu que lá cheguei e hesitei
e por ter através dela vislumbrado uma luz que escureceu
e por nela ter visto o que não via
Ainda que saiba não poder falhar o meu caminho
por nele seguir nele sempre sozinho
até que chegue ao desconhecido fim deste desvelo
interrogo como posso nele estar certo se meu ele é somente
como posso nele escolher se escolher quem sou é sê-lo
e como posso interrogá-lo se ao existir em mim sou eu
Interrogo se tudo aquilo que é ser gente
gente que se lembra e que se esquece e pouco aprende
e que em cada gesto desafia a transparência
não é na verdade um exercício de estranheza
que vive só de interrogar o que é menos transparente
até que nasça a pergunta mais uma vez e sempre
interrogando se essencialmente eu sou esta existência
da qual faz também parte a incerteza
ou se a cada gesto incerto esta existência se transcende

AS QUATRO INSTÂNCIAS DO INSECTO

de Miguel Jesus (24/1/12)



mais tosca do que se faz anunciar 
pelo chão passeia a mosca
escapa sem saber o que é escapar

traz do tigre o fato e do sol o olhar
hábil quando salta quando desliza ou se enrosca
anda o gato a ver a mosca
que se escapa sem saber o que é escapar

fazendo de tudo isto tinta negra
aprisionado pelo verso que me embosca
escapo em poemas o que não posso no olhar
pois sentado também eu vejo essa mosca
e vejo o gato a ver a mosca a querer escapar

e depois de tudo isto a imagem fosca
de um outro ser que se esconde em minha capa
de um deus que não tem olhos nem tem mapa
mas que me vê a ver o gato a ver a mosca
e vê o gato a ver a mosca
e vê a mosca que se escapa

INÊS MORRE

GALATEIA II
Peça de teatro de Miguel Jesus. Numa criação do Teatro o bando, este texto foi representado pela primeira vez a 4 de Março de 2011 no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Desenvolvido em co-produção com a Fundação Centro Cultural de Belém e em parceria com o Centro Cultural Vila Flor, o Teatro Virgínia, o Cine-Teatro de Estarreja, o Teatro Municipal de Bragança, o Teatro de Vila Real e o Teatro Municipal da Guarda, o espectáculo contou com encenação de Anatoly Praudin, coordenaçaõ artística de João Brites, composição musical de Jorge Salgueiro, espaço cénico de Rui Francisco, oralidade de Teresa Lima, figurinos e adereços de Clara Bento, desenho de luz de João Cachulo e apoio à dramaturgia de Odette Bereska. Constituíam o elenco: Miguel Borges (Pedro); Estêvão Antunes (Coelho); Ivo Alexandre (Pacheco); Sara de Castro (Teresa); Susana Blazer (Inês); Horácio Manuel (Afonso); e Helena Afonso (Corifeu).

Encomendas online (revistagalateia@gmail.com). 80 p. / 5€ / Prefácio: Anabela Mendes / Apoio: Teatro o bando / Capa: Raquel Belchior / Execução Gráfica: Pedro Raposo Marques


CORO
Diz-nos, diz-nos, ó história esquecida
Quem compra com a morte o que paga com a vida
Diz-nos, diz-nos, ó cidade demente
Qual o sangue culpado, qual o sangue inocente
Diz-nos, diz-nos, ó pátria maldita
Quanto sangue em ti chora, quanto sangue em ti grita
Diz-nos, diz-nos, ó terra tão santa
Quanta morte em ti grita, quanta morte em ti canta
Diz-nos, diz-nos, ó vil escuridão
Se trazes a morte na voz, se trazes a morte na mão
Diz-nos, diz-nos, ó sombra vizinha
Quem só depois de ser morta conseguiu ser rainha
Diz-nos, diz-nos, ó história esquecida
Quem compra com a morte o que paga com a vida

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PEDRO
Não há maior obra... Escurece. Mais um dia há-de morrer e de sangrar a sua luz. Mais um dia há-de nascer para a escuridão e nunca o sangue dos dias saciará este mundo. Cada dia cedemos o nosso corpo a um outro dia, cada noite anuncia sempre em nós uma outra noite. Dormir, esquecer, apagar? Quem habitará a noite funda? A morada das sombras? O rei, o escravo, o súbdito leal? Aquele que comete crimes? Aquele que morre carregado de inocência? O que pratica a justiça cegamente? Ou o que teme a justiça mais violenta? E a que se chama a violência da justiça se a justiça não conhece a medida dos actos nem a medida dos cortes? Todos havemos de habitar a mesma sombra. E só a sombra há-de saber qual a sua hora.

(Desiste. Silêncio.)

Entra Teresa.

(Teresa abre a arca, retira Inês nua e limpa-a.)

Dizem que o rei vive de noite e que se alimenta do sangue violento da justiça. Mas o que é o homem para o tempo da terra? Entre a noite e o dia quem os pode distinguir? Onde começa um e acaba o outro que eu sempre os vejo de seguida? E o sangue da justiça? Que valor tem? Quanto vale um rei, um prisioneiro, ou qualquer outro corpo? Todo o herói acaba sempre na poeira, todas as vozes são levadas pelo vento e pouco tempo a cinza toma a forma da mão. Vivo ou morto, um corpo é um corpo somente. Para a história o que são as dores dos homens? Serão suas conquistas mais que sombras? E o que é o sangue senão sonho?

(Silêncio.)

Já acordou?

TERESA
Ainda dorme.


(excertos, páginas 16, 54 e 55)